domingo, 11 de maio de 2008

Fluência

Tenho visões com miríades de seres que pulsam do imaginário. Vegetais, minerais e animais caminham pelo sangue. Entram pela retina e saem pelas mãos: letras e imagens. Depois que sangram não se sabe onde está o mineral, o vegetal e o animal. Carregam no ventre a sagrada comunhão das ossaturas fantásticas, com plasma de linfa e sílica e olhos andróginos. São plurais e moldam minha fisiologia diária. Um dia me furtam a placidez e minha face lembra o tropel de um unicórnio, no outro me encharcam as vísceras de água ardente e me brotam miniaturas de massas atmosféricas atrás dos pés. E assim adiante. Todas as metamorfoses me fazem correr, embora o movimento se revista da lentidão de uma galáxia fetal. Executo sangrias diárias para não incubá-los no miocárdio. Para que possam voar com suas plumas de alga sobre as cordilheiras de ervas prateadas e sob as barbatanas do lince. Depois que voam, voltam transfigurados de outras letras e de outras imaginações. E de novo não se sabe a natureza de suas intenções: pedregulho, papoula ou pio de coruja. Só sei que se inscrevem nas horas pardas que conjuro. Por isto os vocalizo com a motriz dos líquenes, rabiscando arabescos nos seus portais.

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