Minha criança interior já nasceu como um ancião interior. Colecionando pedrarias e encontrando na semente de carvalho o maior tesouro de uma vida. A semente guardada a poucas chaves foi-me presenteada durante as primeiras semanas de vida acadêmica. Já cresci revirando o solo em busca de minerais fabulosos e em todas as feiras científicas estudantis munia-me do que considerava a mais maravilhosa e misteriosa expressão da terra. Um evento muito estranho se deu em uma fase de minha pré-adolescência: movido não sei por qual vento interno de desapego, troquei a coleção inteira de rochas e pedregulhos descartados pela engenharia urbana por uma curiosa coleção de conchas coloridas e assombrosas.
O assombro era sorver daquelas delicadezas, achando-as quase improváveis pela origem no útero tormentoso dos oceanos. Espirais que poderiam cortar ou esfarelar ou então soprar um vento desconcertante pelos calabouços abandonados: sons fantasmas de antigos organismos dissolvidos pela água. Estes milagres calcáreos me acompanharam pouco. Entravam pelo meu sono e me tragavam histórias esquecidas. Eu não conhecia o mar senão através dos sonhos e as espiraladas construções me provocavam maremotos de ansiedades contra os quais nada podia fazer. Ainda não exorcizava consciências secretas pela letra ou pela leitura. Doei a pequena monstruosidade catalogada para pessoas que apareciam no meu caminho: pessoas de fundo marinho, com vozes suaves e de compleição aparentemente confiável.
Voltei a juntar os resquícios geológicos. Na época, os considerava mais adequados ao timbre metafísico audível pelos meus ossos em crescimento. Trocava algumas gemas por dissecados insetos coloridos, coleópteros que lembravam esmeraldas, borboletas com perfumes de lápis-lazúli, escorpiões com garras de ônix e rubelitas.
Já alcançava duas décadas de passagem pelo planeta e começava a gostar de metáforas de habitat aéreo. Os humanos continuavam não me interessando muito. Os achava desengonçados demais com suas necessidades exibicionistas. Não conseguia ver rochas, nem asas, nem florestas pelos diálogos e fisiologias. Os olhares semelhantes eram primitivos quando comparados com o imenso fogaréu dourado, de citrino e girassol, da íris dos felinos que sempre obtiveram minha curiosidade máxima. E o tato humano tão carente de estímulos pacificadores e tão indefeso e tão ávido de pactos incoerentes e promessas de solidez sufocante. Eu fugia do contato humano tanto quanto o sal foge da chuva, antes de maturar cristalino assumindo coordenada de diamante.
Quando encontrei a resposta perfumada para a selvageria dos boticários, macerando folhas lilases em cadinhos de ágatas e seguindo protocolos de velhos herbários, comecei a fortalecer-me como um cortejo de ervas na crosta das penínsulas e das mentes.
Ainda rochas, ainda gatos, ainda fenomenais zoologias e enfim fraternidades carnais.
Até receber a semente de carvalho do humano. Depois segredos de madrepérola e riachos pelos sangues e catequeses pelos verbos que me re-ensinavam a pedra, o orvalho e a maresia.
Cada vez mais forte a carapaça, a linfa, a musculatura. Cada vez mais antigo o veículo da existência. Cada vez mais velho o corpo e dentro dele, nas urnas de magnetismos, a juventude renovada, a criança ajoelhada tateando asperezas como se fossem pedaços de espumas e algas e lavas, conquistadas no sólido sofrido aprendizado da consciência. Feito sobra de estrada, feito raspa de magma, feito feto estelar.
domingo, 11 de maio de 2008
Indigência confessa
Minha vida maltrapilha soluçando normalidades pelas vielas comuns. Ando como um imenso desastre sobre a parafernália social. Minha máscara diária atulhada de deslizes.
Estraçalho relógios e expectativas. As ruas lotadas, a superpopulação, os glutões, os chantagistas, os hipocondríacos: estas misérias humanas que me entopem a região cerebral forjada para a convivência. Esta massa urbana despreparada para regiões selvagens, barganhando terrenos inóspitos pelas medicinas artificiais. Armadilhas que impedem a adaptação do espírito. Calefações, ares climatizados vertendo vapores estagnados. Os chefes, os contra-cheques, os dejetos espaciais, as umbandas revertidas em soluções triviais. Que grito, que asco, que flagelo!
E seria tão simples agir como as vítimas do destino. Jogar nas mãos divinas o ímpio calamitoso desvario de minha conduta. Mas vejo demais e bem fundo. Me vejo demais e bem fundo. São meus estes cataclismos interiores.
Meu paganismo não cabe neste mundo. Neste mundo sou inútil, inútil, inútil. Devolvo a inutilidade para este mundo. Recebo mais e mais inutilidades a cada trotar do tempo. Fujo das platéias, não escrevo para quem merece, não abraço o amigo e esqueço compromissos. Falo verdades demais... grosseiramente, como nódoa, como nada, como rasgo.
Aos que doaria o entendimento integral de minha alma, não o posso fazer, pois já estão todos mortos. Alguns ainda respiram e não desistem, porque são maiores do que eu. São bem poucos.
Se ainda continuo aqui é pela breve existência de uns poucos, muito raros, de utilidades esmagadoras.
É isto, a verdade secreta como o perfume inumano das amapolas de Neruda.
E tu, o maioral... pensa que te amo. Eu também pensava. Mas descubro friamente que é um ódio profundo e decepado que me leva até aí, onde te escondes.
Este ódio me alimenta e me fortalece. E passo por ele, o atravessando como uma massa fantasmagórica de natureza placentária. Os fios de meu cabelo se magnetizam e eriçam-se quando penetro nesta camada desoladora que é o ódio gêmeo que emana de ti e me alcança.
Que sombra, que ira, que confissão!
Chega de propagandas enganosas, meu caro. Chega de conselhos infantilizados. A infância já é morta, ressequida como asas de mariposas em diários fungados. A criança interior não precisa ser ridícula, beirando a manha dos neurônios em formação. A criança interior precisa ser nutrição, precisa aceitar o ancião interior. A seiva virgem - pura e sempre nova - conhece o caminho antigo das vegetações centenárias.
Me sinto muito velho e me cansa esta repetição de percepções. Me sinto denso e pesado. E constato que é mais uma miséria humana desoladora. E me odeio como odeio a ti. Me sinto uma obsessão despreparada, apesar dos séculos de testes, de carmas, de darmas, de reciclagens biológicas. Que mácula, que fiasco, que perfídia!
Que me impele para mais vida ainda.
Eu resisto em ti. Não notas como ainda persisto?
Eu procurei nas coisas leves e amorosas e quis entender esta renúncia que é minha persistência doentia. Mas não encontrei nada nestas auras adocicadas. Eu só pude achar sentido neste enjôo de sensações inúteis, nesta palavra temida que é o ódio.
Talvez seja um erro mais pecaminoso que a gula, ou a cobiça, ou qualquer desvio de código moral. Mas agora me mergulho nesta experiência verdadeira. E apesar do nó psíquico que me sufoca de agonias, me liberto um pouco. Derrubo a omoplata e desfaço a ruga suspensa sobre os olhos. Que convulsão! Que injúria! Que libertação! Que ego!
Agora: aniquilar tudo e acender a pira funerária para a auto-inquisição.
Pode jogar a primeira pedra, quem nunca odiou.
Estraçalho relógios e expectativas. As ruas lotadas, a superpopulação, os glutões, os chantagistas, os hipocondríacos: estas misérias humanas que me entopem a região cerebral forjada para a convivência. Esta massa urbana despreparada para regiões selvagens, barganhando terrenos inóspitos pelas medicinas artificiais. Armadilhas que impedem a adaptação do espírito. Calefações, ares climatizados vertendo vapores estagnados. Os chefes, os contra-cheques, os dejetos espaciais, as umbandas revertidas em soluções triviais. Que grito, que asco, que flagelo!
E seria tão simples agir como as vítimas do destino. Jogar nas mãos divinas o ímpio calamitoso desvario de minha conduta. Mas vejo demais e bem fundo. Me vejo demais e bem fundo. São meus estes cataclismos interiores.
Meu paganismo não cabe neste mundo. Neste mundo sou inútil, inútil, inútil. Devolvo a inutilidade para este mundo. Recebo mais e mais inutilidades a cada trotar do tempo. Fujo das platéias, não escrevo para quem merece, não abraço o amigo e esqueço compromissos. Falo verdades demais... grosseiramente, como nódoa, como nada, como rasgo.
Aos que doaria o entendimento integral de minha alma, não o posso fazer, pois já estão todos mortos. Alguns ainda respiram e não desistem, porque são maiores do que eu. São bem poucos.
Se ainda continuo aqui é pela breve existência de uns poucos, muito raros, de utilidades esmagadoras.
É isto, a verdade secreta como o perfume inumano das amapolas de Neruda.
E tu, o maioral... pensa que te amo. Eu também pensava. Mas descubro friamente que é um ódio profundo e decepado que me leva até aí, onde te escondes.
Este ódio me alimenta e me fortalece. E passo por ele, o atravessando como uma massa fantasmagórica de natureza placentária. Os fios de meu cabelo se magnetizam e eriçam-se quando penetro nesta camada desoladora que é o ódio gêmeo que emana de ti e me alcança.
Que sombra, que ira, que confissão!
Chega de propagandas enganosas, meu caro. Chega de conselhos infantilizados. A infância já é morta, ressequida como asas de mariposas em diários fungados. A criança interior não precisa ser ridícula, beirando a manha dos neurônios em formação. A criança interior precisa ser nutrição, precisa aceitar o ancião interior. A seiva virgem - pura e sempre nova - conhece o caminho antigo das vegetações centenárias.
Me sinto muito velho e me cansa esta repetição de percepções. Me sinto denso e pesado. E constato que é mais uma miséria humana desoladora. E me odeio como odeio a ti. Me sinto uma obsessão despreparada, apesar dos séculos de testes, de carmas, de darmas, de reciclagens biológicas. Que mácula, que fiasco, que perfídia!
Que me impele para mais vida ainda.
Eu resisto em ti. Não notas como ainda persisto?
Eu procurei nas coisas leves e amorosas e quis entender esta renúncia que é minha persistência doentia. Mas não encontrei nada nestas auras adocicadas. Eu só pude achar sentido neste enjôo de sensações inúteis, nesta palavra temida que é o ódio.
Talvez seja um erro mais pecaminoso que a gula, ou a cobiça, ou qualquer desvio de código moral. Mas agora me mergulho nesta experiência verdadeira. E apesar do nó psíquico que me sufoca de agonias, me liberto um pouco. Derrubo a omoplata e desfaço a ruga suspensa sobre os olhos. Que convulsão! Que injúria! Que libertação! Que ego!
Agora: aniquilar tudo e acender a pira funerária para a auto-inquisição.
Pode jogar a primeira pedra, quem nunca odiou.
Cordillera
Minha natureza, bem constituída de aceitações, reverências e irracionalidades, revolve-se quando focaliza a linha arqueada sob o promontório da lua sinistra. Sou dos mais simples seres, a epiderme colorida como coral, o pigmento desgastado pelos moderados apetites, pelas equilibradas sedes, pela parcimônia da vaidade espiritual. A ótica de estatura prosaica, exigindo das fotorreceptoras cavidades o suficiente para que se conjecturem imagos arcaicos, benevolentes com o incenso dos locais sagrados e irascíveis com adulteração das secretas mitologias internas. Arquétipos fecundam minha diária aspiração, os persigo como a caça intitula o sangue primitivo do homem, classificando-o como mimético prometeu no cinema celestial, no irrisório drama existencial a que sucumbe fatalmente o pensamento de cada criatura, do manto niquelado ao mirante dos atanores estelares mais distantes.Mas este cáucaso! Aceso pelas extremidades tateadoras de leviatãs e minuanos, impulsiona-me, do mapa da tranqüilidade para o planisfério das ligações bizarramente fadadas ao combate.
Que os signos nos devorem
Na rosácea: vitral e campo de algodão.E falanges em ventarolas, pandorgas.Leques, as pétalas no raio das ossaturas.Uma cruzada ardorosa.Após, escrever hieróglifos. Ou pieguices, tratados, ordenações, ameaças, blefes, seduções.Uma questão de direção interna. Ou falta.
* Na alegoria desaparece a distância entre o ser e o sentido: o signo devora o ser.
(Octavio Paz em A outra voz)
Fluência
Tenho visões com miríades de seres que pulsam do imaginário. Vegetais, minerais e animais caminham pelo sangue. Entram pela retina e saem pelas mãos: letras e imagens. Depois que sangram não se sabe onde está o mineral, o vegetal e o animal. Carregam no ventre a sagrada comunhão das ossaturas fantásticas, com plasma de linfa e sílica e olhos andróginos. São plurais e moldam minha fisiologia diária. Um dia me furtam a placidez e minha face lembra o tropel de um unicórnio, no outro me encharcam as vísceras de água ardente e me brotam miniaturas de massas atmosféricas atrás dos pés. E assim adiante. Todas as metamorfoses me fazem correr, embora o movimento se revista da lentidão de uma galáxia fetal. Executo sangrias diárias para não incubá-los no miocárdio. Para que possam voar com suas plumas de alga sobre as cordilheiras de ervas prateadas e sob as barbatanas do lince. Depois que voam, voltam transfigurados de outras letras e de outras imaginações. E de novo não se sabe a natureza de suas intenções: pedregulho, papoula ou pio de coruja. Só sei que se inscrevem nas horas pardas que conjuro. Por isto os vocalizo com a motriz dos líquenes, rabiscando arabescos nos seus portais.
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